Como analisar a DRE de um hospital, passo a passo
Do resultado à causa em cinco passos, com a estrutura gerencial que torna a DRE útil para a diretoria.
Analisar a DRE hospitalar é responder, em ordem, a cinco perguntas: o resultado está bom ou ruim? Contra o quê? Qual linha explica a diferença? Em qual centro de custo ela nasce? É volume, preço ou mix? Este artigo mostra o roteiro, a estrutura gerencial que facilita a leitura e os erros mais comuns.
A DRE contábil e a DRE gerencial
A DRE contábil segue as normas de contabilidade e serve para prestação de contas. A DRE gerencial reorganiza as mesmas informações para a decisão: separa o que varia com o atendimento do que é fixo, destaca a margem de contribuição e o resultado operacional. Uma estrutura gerencial típica de hospital:
| Linha | O que entra |
|---|---|
| Receita bruta | Faturamento de SUS, convênios e particulares, por competência |
| (−) Deduções | Glosas, impostos sobre a receita |
| (=) Receita líquida | |
| (−) Custos variáveis | Materiais, medicamentos, OPME, honorários médicos por produção |
| (=) Margem de contribuição | Quanto sobra para a estrutura |
| (−) Custos fixos | Pessoal, estrutura, serviços de terceiros, manutenção |
| (=) Resultado operacional (EBITDA) | Geração de caixa da operação |
| (−) Depreciação e amortização | |
| (+/−) Resultado financeiro | Receitas e despesas financeiras |
| (=) Resultado final |
A estrutura exata varia de hospital para hospital. O importante é que ela seja a mesma todos os meses e que as contas contábeis estejam classificadas sempre do mesmo jeito.
Passo 1: comece pelo resultado
Olhe primeiro o resultado operacional e o resultado final do período. Estão acima ou abaixo do orçado? E do mesmo período do ano anterior? Essa resposta define o tom da análise.
Passo 2: compare com duas referências
- Contra o orçamento: mostra se o hospital está cumprindo o plano.
- Contra o ano anterior: mostra a evolução real, sem depender da qualidade do orçamento.
Uma DRE abaixo do orçado mas acima do ano anterior conta uma história diferente de uma DRE abaixo das duas referências. O artigo sobre orçado x realizado aprofunda essa comparação.
Passo 3: ache a linha que explica a diferença
Percorra a DRE de cima para baixo e marque as linhas com maior desvio em R$, e não em percentual: um desvio de 40% em uma linha pequena pesa menos que um de 5% na folha de pagamento. Use também a análise vertical (quanto cada linha representa da receita) para ver se a estrutura mudou: materiais que passam de 18% para 21% da receita são um sinal, mesmo que o valor absoluto tenha caído junto com a receita.
Passo 4: ache o centro de custo
A linha da DRE diz o quê; o centro de custo diz onde. Abra o desvio por centro de custo e por conta contábil. É aqui que a análise vira conversa com os gestores: cada desvio relevante deve ter um responsável e uma explicação. Veja como acompanhar custos por setor.
Passo 5: separe volume, preço e mix
Um custo que subiu nem sempre é um problema:
- Volume: o hospital atendeu mais pacientes, e o custo variável acompanhou. Compare com a produção.
- Preço: o mesmo consumo custou mais (reajuste de fornecedor, dissídio).
- Mix: mudou a composição dos atendimentos (mais cirurgias complexas, mais SUS, outro convênio).
- Eficiência: o consumo por paciente aumentou sem mudança de volume, preço ou mix. Esse é o desvio que pede ação.
Erros comuns na análise da DRE
- Misturar caixa e competência: a DRE é por competência. Pagamentos atrasados não mudam a DRE do mês.
- Mudar a classificação das contas no meio do ano: a comparação perde o sentido.
- Olhar só o percentual: o desvio que importa é o de maior valor.
- Parar no total: sem descer ao centro de custo, a análise não vira ação.
- Ignorar os itens não recorrentes: um acordo, uma venda de ativo ou uma provisão podem esconder a tendência real.
Como um BI ajuda
Com um BI ligado ao sistema de gestão, os passos 1 a 4 ficam prontos logo depois do fechamento: a DRE orçado x realizado, a variação por centro de custo e as análises vertical e horizontal. A controladoria ganha tempo para o passo 5 e para a conversa com os gestores. Para hospitais com Tasy, veja controladoria e DRE com dados do Tasy. O papel da área está em controladoria hospitalar.
Perguntas relacionadas
Qual a diferença entre DRE e fluxo de caixa?
A DRE mostra o resultado por competência: receitas e custos do mês em que aconteceram. O fluxo de caixa mostra o dinheiro que entrou e saiu. Um hospital pode ter DRE positiva e caixa negativo, por causa dos prazos dos convênios e das glosas.
Glosa entra na DRE como dedução ou como despesa?
Na estrutura gerencial, a glosa costuma entrar como dedução da receita, porque representa receita que não será recebida. O importante é manter o mesmo critério todos os meses.
Com que frequência analisar a DRE?
Mensalmente, logo após o fechamento contábil. Indicadores que antecipam a DRE, como produção, faturamento e contas pendentes, devem ser acompanhados durante o mês.
Escrito pela equipe que faz o Clic Health: contadores, controllers e desenvolvedores que trabalham há mais de 20 anos com a gestão de hospitais.